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Crítica: Lion – Uma jornada para casa

Postado por: Camila Tebet 0 Categoria: Cinema & TVOscar 2017

lion1Um dos filmes mais emocionantes da temporada, Lion – Uma jornada para casa é baseado em uma história real e traz um alerta para uma importante questão: as milhares de crianças que se perdem por ano na Índia. No filme, dirigido por Garth Davis, acompanhamos a jornada de Saroo, que ainda quando criança foi acompanhar o irmão mais velho em um trabalho noturno, mas acabou se perdendo dele. A história é abordada no longa com muita sensibilidade e apresenta mundos completamente diferentes.

Após se desgarrar do irmão Guddu (Abhishek Bharate), Saroo foi parar em um trem que andou por dias até chegar a Calcutá, uma cidade em que ele não conseguia se comunicar com as outras pessoas. Sem saber e conseguir explicar direito de onde veio, o pequeno vaga pela cidade por longos meses e passa por diversas situações de adversidade, até ser levado a força pelo governo para um internato. Lá, ele percebe a crueldade com que as crianças de rua são tratadas, ao mesmo tempo em que encontra pessoas dispostas a ajudá-lo a encontra uma nova família.

Assim, ele é adotado por um casal de australianos e passa a viver uma realidade completamente diferente da que estava habituado. A primeira parte do filme é dedicada à infância de Saroo. O pequeno Sunny Pawar, que interpreta o personagem quando criança, rouba a cena no filme. Ele é cativante e conquista o espectador já em suas primeiras cenas. A angústia do pequeno ao se perder da família é transposta para fora da tela, sendo praticamente impossível não criar uma forte empatia pelo personagem.

De origem pobre, Saroo sonhava, junto com o irmão, quando eles teriam uma vida melhor. Pequeno, ele já desejava ajudar no trabalho para trazer mantimentos para casa. Quando se perde, é possível identificar o quanto ele, que apesar de já desempenhar tarefas em casa, precisa de inúmeros cuidados, como qualquer criança. Quando é adotado por uma família rica, sua vida muda completamente, tendo todas as oportunidades que são roubadas da maioria das crianças pelo mundo.

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Vinte anos depois, na fase jovem adulta, ele passa a se questionar sobre tudo o que viveu. Apesar de agradecer todas as oportunidades que teve e amar sua família adotiva, ele não deixa de pensar na família que deixou para trás e o que poderia ter sido se continuassem juntos. Assim, Saroo começa uma busca infindável pelas suas origens – com pistas quase nulas sobre seu local de nascença.

A história de Saroo é real, intensa e emocionante. Ele transita entre mundos completamente diferentes e redescobre suas origens depois de anos. A história dele também é um retrato da desigualdade e complexidade humana. É a primeira parte, com Saroo criança, que dá força ao filme. O pequeno é cativante e traz forte carga dramática ao filme. Ao transitar para a fase adulta, o longa perde um pouco em ritmo.

Dev Patel, como Saroo adulto, está muito bem e Nicole Kidman, como a mãe adotiva, também. Não à toa, receberam indicações ao Oscar 2017. Entretanto, a relação com sua família adotiva acaba ficando um pouco de lado e deixando respostas em aberto, a exemplo do irmão adotivo Mantosh, também indiano, que carrega marcas profundas, mas é quase ignorado na obra. Outro ponto fraco do filme é a presença de Rooney Mara, que interpreta Lucy, namorada de Saroo. Ela é pouquíssimo explorada na história e sua presença torna-se irrelevante, o que incomoda em certas partes da história.

Apesar de contar com um desfecho extremamente romantizado e até mesmo um tanto quanto fantasioso, destoando do resto do longa, e de possuir algumas falhas em seu roteiro, Lion – uma jornada para casa traz uma história comovente, capaz de emocionar a muitas pessoas, e uma forte mensagem de conscientização.

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FICHA TÉCNICA

Título original: Lion

Diretor: Garth Davis

Gênero: Drama

Duração: 118 minutos

Classificação: 12 anos

Países: Austrália, EUA

Nota: 4/5

Camila Tebet

Jornalista, é apaixonada por cultura em todas as suas vertentes. Acredita no poder de transformação social e intelectual que as artes possuem e tenta, mesmo que aos poucos, democratizá-la.